Sermão de S.E.R. Dom Alfonso de Galarreta, FSSPX (15/03/2009)

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SERMÃO DE S.E.R. DOM ALFONSO DE GALARRETA, FSSPX (15/03/2009)

PRONUNCIADO NA MISSA DE DOMINGO, 15 DE MARÇO DE 2009
NO SEMINÁRIO “NUESTRA SEÑORA CORREDENTORA” DE LA REJA.

Áudio em espanhol.

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Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Queridos Padres, queridos seminaristas, queridos fiéis,

Aproveito esta primeira oportunidade em que posso lhes dirigir a palavra para me referir a dois importantes acontecimentos que ocorreram neste Verão, e gostaria de dar uma visão mais geral, ou seja, desde o princípio – a partir do ponto de vista sobrenatural – para que fique claro qual é a nossa posição, a posição da FSSPX e qual deve ser a linha a nos guiar por meio de nossas batalhas.

Primeiro acontecimento importante

Em primeiro lugar, em ordem cronológica, houve o decreto sobre as supostas excomunhões; depois o levantamento do decreto das supostas excomunhões. Nossa posição tem sido muito clara antes, durante e depois deste decreto. Sempre afirmamos e sempre sustentamos que essas censuras eram absolutamente nulas de fato e de direito.

Aquele ato de 1988 – as sagrações episcopais – não somente foi um bem, senão também um bem supremo, em razão do estado de necessidade em que se encontra a Santa Igreja. Foi um ato para salvaguardar o verdadeiro sacerdócio católico e, portanto, a verdadeira Fé católica. Foi um ato em defesa da Santa Igreja, para a sobrevivência da Santa Igreja e, portanto, é evidente que não pode ser objeto de nenhum tipo de condenação.

No entanto, é também evidente que, aos olhos do cidadão comum, estávamos excomungados: aos olhos da opinião pública, aos olhos do resto da Igreja, a quem não chegam as nossas explicações e os nossos argumentos, estávamos condenados. E sobretudo estava condenada a Tradição católica, a verdadeira fé católica. E, por isso, nos alegramos com o decreto.

Sabe-se que pensar é distinguir. É próprio da inteligência distinguir. Temos de distinguir entre os diferentes aspectos das coisas. Alegramo-nos e agradecemos – pois a cortesia não desvirtua a coragem, e o respeito e a caridade são obrigações de todo bom cristão – alegramo-nos e estamos gratos por esse decreto, precisamente enquanto nos retira este estigma, enquanto retira essa condenação que estava sobre o que representamos, que é a verdadeira Tradição católica, que é a verdadeira Fé católica. E esse primeiro aspecto abre o caminho para podermos discutir sobre a doutrina, sobre a Fé, com Roma.

Em segundo lugar, é evidente que essa medida elimina um grande obstáculo para muitas almas para que possam estar mais próximas de nós, mais perto da Tradição. E é isso que está acontecendo. Depois do Motu Proprio e, ainda mais especialmente, depois do decreto, há muitas pessoas que estão se aproximando da Tradição, e muitos padres, que antes tinham medo, agora vêm para aprender a missa, por exemplo, em nossos Priorados.

Agora, o fato de nos alegrarmos não significa,com isso, que o decreto em si mesmo nos pareça bom. É evidente que o decreto não corresponde nem à realidade, nem à verdade, nem à justiça. Assim, continua pendente uma verdadeira reabilitação, não tanto quanto a nós os quatro bispos da Fraternidade, senão também especialmente a daqueles que compõem a pequena família da Tradição, e mais especialmente a reabilitação de Mons. de Castro Mayer e Mons. Lefebvre. Esta está pendente.

Mas, é evidente que, para quem reflete um pouco, esta Roma atual não poderá fazer tal reabilitação, se antes não entender que agimos movidos pelo bem comum da Igreja e pelo estado de necessidade, e para isso tem de reconhecer que existe um grave problema de apostasia da Fé nela mesma. É impossível pretender essa reabilitação agora, justamente quando queremos falar a eles para que vejam, com a graça de Deus, que estão andando longe dos caminhos da Fé.

Em terceiro lugar, já dissemos muitas vezes e repito, desde que nós, sucessores de Mons. Lefebvre, entramos em contato com Roma, deixamos bem claro que, absolutamente, excluímos qualquer acordo puramente prático. Não o buscamos, nem o aceitamos e nem estamos dispostos a recebê-lo. Sabemos que isso seria o fim do nosso combate, porque, como podemos obedecer e nos colocarmos à disposição daqueles mesmos que nos mandam demolir a sistemática da Fé e da Igreja, abraçando o modernismo e o liberalismo?

Isso já aconteceu antes, durante e depois do Motu Proprio e do decreto de excomunhão. No entanto – e esta é também a nossa posição, posição praticamente unânime da Fraternidade – estamos prontos para um confronto doutrinal com Roma. Estamos prontos a ir dar testemunho da verdadeira fé, ali onde devemos e, realmente, onde podemos resolver esta crise na Igreja, que é em Roma.

De fato, para ilustrar que essa é a nossa real posição, há de se recordar sempre que, já alguns anos atrás – para que vejam o que realmente queremos – por várias vezes rejeitamos acordos puramente canônicos e puramente práticos.

Em janeiro, nos dias em que se publicou o decreto – recebemo-lo antes naturalmente – nos foram oferecidas por duas vezes soluções canônicas absolutamente superiores às que aceitaram pessoas como os padres de Campos ou do Instituto do Bom Pastor. Isto é, foram-nos oferecidas soluções canônicas praticamente incondicionais, e mesmo assim as rejeitamos. Por quê? Porque isso nos colocaria em uma ambigüidade quanto à confissão pública da Fé. E, em segundo lugar, porque nos lançaria na dinâmica de um acordo puramente prático que nos colocaria, na verdade, sob suas ordens e sob sua influência.

E o documento – a recente carta do Papa a todos os bispos católicos, carta realmente interessante e que tem de saber lê-la, precisamente com distinção – vem confirmar que Roma finalmente aceita o que sempre foi a nossa proposta. Com efeito, após retirar os dois obstáculos – que eram a proibição da missa e as censuras canônicas – podemos iniciar as verdadeiras discussões doutrinais, ou seja, sobre o Concílio Vaticano II e os ensinamentos pós-conciliares. É isso que o Papa propõe e o que o Papa anuncia. Assim vão se juntar a Comissão Ecclesia Dei com a Congregação para a Doutrina da Fé. Isto é, finalmente reconhecem que a questão é doutrinal e de Fé e, finalmente aceitam discutir e por em discussão o Concílio Vaticano II. Isso, pelo menos aos nossos olhos, é um grande passo.

Tampouco, obviamente, se nos escapa que é uma luta desproporcional. Não ignoramos a disparidade deste combate, que é como o de Davi e Golias. Somos muito pequenos, temos pouquíssimos meios frente ao que representa esta instituição e esta maquinaria do Vaticano. No entanto – e certamente tomaremos muito cuidado e agiremos com muita prudência – não creio que iremos de qualquer maneira, ou sem qualquer condição. O fato de irmos a este combate não é dizer que estejamos dispostos a fazê-lo de qualquer maneira. Iremos, mas na medida de nossas possibilidades, com toda a prudência, vigilância e desconfiança também.

Mas, outra vez, recordo que David foi quem ganhou a batalha, e não Golias. E David venceu a batalha, porque sua causa era a causa de Deus. E o que ele buscava não era seu próprio bem, nem a sua própria glória, mas a glória de Deus, e porque foi em nome de Deus – in nomine Domini – e porque confiou em Deus. Não vejo por que razão cairmos em atitudes medrosas, atitudes pusilânimes, ou meio histéricas, simplesmente porque iremos dar razão de nossa Fé, e lá onde temos de ir é onde sabemos que esta crise vai ser resolvida. É exatamente pelo que estamos lutando há 40 anos, para ter essa possibilidade.

E depois? Depois já sabemos de quem é a vitória, já sabemos. “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rom. 8, 31) Ou será que temos medo de defender a verdade, de expor toda a Tradição, todos os ensinamentos dos santos, dos papas, dos doutores? Devemos ser fortes. “Viriliter agite, et confortetur cor vestrum: Portai-vos varonilmente – diz Deus – fortaleça-se o vosso coração” (Sl. 30, 25).

Segundo acontecimento importante

O outro caso, que vocês já sabem qual é e que teve como epicentro circunstancial este Seminário de La Reja, também requer algumas reflexões e uma visão geral. Em qualquer corpo moral bem constituído, obviamente, quando um membro comete um erro ou uma falha, a obrigação dos outros membros consiste na caridade. A obrigação de seus pares, dos outros membros, especificamente, consiste na misericórdia. E, aplicando-se a este caso, como ensina S. Tomás, em primeiro lugar, se necessário, trata-se da correção fraterna, que é um ato de misericórdia.

Em seguida, o perdão, o perdão dos pecados, o perdão das ofensas, o perdão das consequências das ofensas ou das faltas.

E, em terceiro lugar – diz Santo Tomás – a terceira obra de misericórdia – nessa ordem – é a paciência, “Suportai-vos uns aos outros” (Ef. 4, 2). O que não podemos corrigir no próximo, o que ele não pode mudar, as terríveis consequências que se devem sofrer e recaem sobre todo o corpo, temos de suportá-las com paciência. Isso é um ato de misericórdia.

Mas há um princípio que é superior a este. É que em qualquer corpo moral bem constituído, o bem comum prevalece sobre o bem particular. E prevalece, a fortiori, sobre o interesse particular, o que nem sempre é o bem particular, e mesmo, a fortiori, sobre as opiniões particulares.

Porém, quem tem o cuidado de zelar sobre o bem comum, não é cada um dos membros, mas a autoridade constituída. A autoridade vem de Deus, não da base. A autoridade é dada por Deus. E, então, em um corpo bem constituído, como é, por exemplo, a Santa Igreja, ou como o há de ser, por exemplo, a Fraternidade de São Pio X, todos devemos preferir o bem comum ao bem particular e, além disso, a autoridade tem de defender, não só preferir e amar mais, senão que tem a obrigação de defender – para isso recebeu a autoridade – esse bem comum em detrimento do bem particular.

Porque é muito bom criticar o liberalismo, criticar o personalismo, mas se depois temos atitudes anárquicas ou de franco-atiradores, por preferirmos a nossa opinião ou nosso bem particular ao bem comum, estamos caindo naquilo que criticamos.

A segunda observação ou reflexão que quero fazer é que, de qualquer modo, não há proporção entre o motivo, a causa alegada e efeito violento que se desencadeou contra nós: contra o Monsenhor, contra o Papa, contra a Fraternidade e contra Igreja. O que demonstra que, em todo o caso, foi apenas um motivo ou uma causa ocasional.

Diz-se que a árvore não nos tapa a visão do bosque. Com efeito, espero que a árvore – que aqui tivemos muito próxima – não nos tape a visão do bosque. Na Espanha, dizem que quando se aponta para a lua, o tolo fica olhando para o dedo. “Ali está a lua”, e o tolo olha para o dedo. O dedo está ali? Sim, mas está apontando para outra coisa! E o que está sendo apontado, na minha opinião, é exatamente o temor que eles têm do avanço da Tradição – da causa da Tradição e da verdadeira Fé – no seio da Igreja oficial. O medo desesperado e a raiva que lhes dão por ver que podemos discutir o Concílio Vaticano II e as doutrinas pós-conciliares saídas do Concílio Vaticano II, ou seja, o modernismo e o liberalismo.

Para eles isso é intocável. Isso sim é uma causa proporcional ao ataque violento, mediático, político, etc., de que fomos objeto.

Portanto, pondo às claras, não é um mau sinal … – Naturalmente, temos de sofrer – mas isso não é um mau sinal. “Ladram, Sancho, sinal de que estamos cavalgando” – frase que, por certo, não é de Dom Quixote, mas vem muito a propósito. Para mim é tal qual. “Ladram, Sancho” sinal de que, pela primeira vez, começamos a incomodá-los seriamente.

Trata-se, portanto, do que é normal no nosso combate. Do que é normal, isto é, a perseguição, que podem vir de diferentes maneiras, por vezes silenciosa, às vezes mais explícita e violenta. É o que Nosso Senhor nos anunciou: “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a mim” (Jo 15, 18), “Se eles me perseguiram a mim, também vos hão de perseguir a vós” (Jo. 15, 20). O mesmo diz São Paulo: “Todos os que querem viver piamente em Jesus Cristo padecerão perseguição” (2 Tim 3, 12).

Mantendo a serenidade, em alguns momentos cruciais

Assim, devemos nos manter serenos. Com efeito, é como uma confirmação de que não estamos mal encaminhados. É como Nosso Senhor nos disse. Sabemos que a vitória virá por meio da Cruz. Não pensem vocês que não haverá sacrifícios, sofrimentos e talvez martírios para reverter a situação que existe hoje na Igreja; não compreender isso é não compreender nada do Cristianismo.

Então, quando essas perseguições vierem, mantenhamos a serenidade, mantenhamos a resistência, a perseverança e até mesmo a alegria. Os Atos dos Apóstolos nos dizem que eles – os Apóstolos – se alegravam de sofrer alguma coisa por Cristo, pela Igreja (At 5, 41). Eu sei que Nosso Senhor, na oitava bem-aventurança – que é, segundo Santo Tomás, a que encerra, implicitamente, todas as outras, diz: “Bem-aventurados sois, quando vos insultarem e vos perseguirem, e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus.” (Mt. 5, 11-12). Ele nos diz “alegrai-vos”; não “entristecei-vos”.

Parece-me que uma boa aplicação de tudo o que temos passado, para vocês, queridos seminaristas, é esta: é bom que agora que vocês têm tempo e calma para se prepararem, saberem o que está acontecendo. Isto é um primeiro aviso do que está para vir. Quanto mais vamos avançando, tanto mais nos vão perseguir. Em outras palavras, vocês devem saber que o sacerdócio católico, hoje em dia, é para valentes … é para valentes… e não valem nada as meias medidas. E que, portanto, vocês devem aproveitar esses preciosos anos de formação que terão.

Formação que, a meu modo de ver, tem três pilares. Em primeiro lugar – seguindo a ordem natural das coisas – doutrina. A doutrina, a formação na Fé. Portanto, formação intelectual. Os estudos. Porque, o seminário é uma casa de estudos, que brilha – como explicou o Pe. Olmedo outro dia, 7 de março – especialmente a pessoa e a doutrina de Santo Tomás de Aquino. Também podemos enumerar os demais estudos realizados no Seminário. Não se estuda somente teologia ou filosofia, senão também espiritualidade, história, latim e, sobretudo, Sagradas Escrituras. O padre tem de ser versado nas Sagradas Escrituras, a ciência própria do padre.

O segundo pilar é a piedade. A piedade que engloba a liturgia – todos os ofícios, todas as cerimônias, especialmente o santo sacrifício da missa, mas também, por exemplo, o canto – e também a oração pessoal. Em seis anos de seminário devem ser especialistas em oração, a oração pessoal muito firme e bem fundamentada.

E se o Seminário é a casa de estudo e casa de piedade, é também – e não em menor medida, creio que é talvez do que mais esquecemos, porque é mais difícil – uma escola de perfeição, de santificação. No Seminário, vocês devem se habituar à prática das virtudes, isto é, das obras. É isso o que definitivamente lhes dará solidez, lhes dará, posteriormente, um sacerdócio fecundo e perseverante.

Peçamos, então, neste dia à Santíssima Virgem que nos dê a todos nós a graça de corresponder ao que Deus espera de nós nestes momentos cruciais da Igreja; que nos dê a graça de estarmos à altura daquilo que se nos pede a todos. E peçamos especialmente aos seminaristas que iniciam mais um ano letivo que se formem com profundidade, buscando a Deus, amando a Deus, imitando a Nosso Senhor Jesus Cristo.

A Virgem Maria foi bem-aventurada por ser a Mãe de Deus, foi mais bem-aventurada por haver crido e foi ainda mais bem-aventurada por haver posto em prática a palavra de Deus.

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.