Comentários Eleison 208 – O pensamento de Bento – I

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O PENSAMENTO DE BENTO – I

ELEISON COMMENTS CCVIII (09 de julho de 2011)

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O “Comentario Eleison” de 18 de Junho prometeu quatro números de “Comentarios Eleison” que mostrariam o quão “desorientado” está o Papa Bento XVI em sua “maneira de pensar”. De fato apresento um resumo do precioso tratado acerca de seu pensamento, escrito faz dois anos por Dom Tissier de Mallerais, um dos quatro bispos da Fraternidade São Pio X. O tratado do bispo, A Fé Posta em Perigo pela Razão, é por ele chamado de “sem pretensões”, mas de fato expõe bem o problema fundamental do Papa – como crer na Fé Católica de maneira tal que não se necessite excluir os valores do mundo moderno. O tratado mostra que essa maneira de crer necessariamente está desorientada, ainda que o Papa de alguma maneira ainda creia.

Ele se divide em quatro partes. Depois de uma importante Introdução à “Hermenêutica da Continuidade” de Bento XVI, Dom Tissier revisa brevemente as raízes filosóficas e teológicas do pensamento do Papa. Em terceiro lugar expõe seus frutos para o Evangelho, para o dogma, para a Igreja e a sociedade, para o Reinado de Cristo e para os Novíssimos. Conclui com um juízo moderado da Fé “renovada” do Papa, bastante crítico, mas em sua totalidade respeitoso. Comecemos com uma resenha da Introdução: —

O problema básico para Bento XVI, como para todos nós, é o choque entre a Fé Católica e o mundo moderno. Por exemplo,  ele vê que a ciência moderna é amoral, que a sociedade moderna é secular e a cultura moderna multirreligiosa. Ele especifica que este choque se dá entre a Fé e a Razão, entre a Fé da Igreja, e a Razão tal como se concebe a partir do Iluminismo do século XVIII. Entretanto, ele está convencido de que estas podem e devem ser interpretadas de maneira que possam unir-se em harmonia uma com a outra. Daí sua participação intensa no Vaticano II, um Concilio que também tentou reconciliar a Fé com o mundo atual. Mas os Tradicionalistas dizem que o Concilio falhou, porque estes mesmos princípios são irreconciliáveis com a Fé. Daí a “Hermenêutica da Continuidade” do Papa Bento, um sistema de interpretação para demonstrar que não existe ruptura entre a Tradição Católica e Vaticano II.

Os princípios da “hermenêutica” de Bento se remontam a um historiador Alemão do século XIX, Wilhelm Dilthey (1833-1911). Dilthey sustentava que as verdades se apresentam na história, então só podem ser entendidas em sua história, e as verdades humanas não podem ser entendidas sem o envolvimento do sujeito humano contemporâneo a essa historia. Assim é que para trasladar a essência das verdades passadas ao presente, necessitamos tirar todo o elemento que pertença ao passado, hoje em dia irrelevante, e substituir com elementos de importância para o presente que se vive. Bento aplica à Igreja este duplo processo de purificação e enriquecimento. Por uma parte a Razão necessita purificar à Fé de seus erros passados, por exemplo, seu absolutismo, enquanto por outra parte a Fé necessita conseguir que a Razão modere seus ataques à religião e recorde que seus valores humanos, liberdade, igualdade e fraternidade, se originaram todos na Igreja.

O grande erro do Papa nisto é que as verdades da Fé Católica, sobre as quais se fundou a civilização Cristã e sobre as quais seus restos débeis ainda descansam, não têm suas origens de nenhuma maneira na história humana e sim no seio do Deus imutável. São verdades eternas, desde a eternidade, para a eternidade. “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”, disse Nosso Senhor (Mt, XXIV, 35). Nem Dilthey, nem aparentemente Bento XVI, podem conceber verdades mais além da história humana e acima de todo seu condicionamento.

Se o Papa pensa que ao fazer ditas concessões à Razão sem fé, atrairá os adeptos dela à Fé, que pense de novo. Simplesmente desprezarão à Fé ainda mais!

Em breve, as raízes filosóficas e teológicas do pensamento de Bento.

Kyrie Eleison.

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