Comentários Eleison 203 – Ler os pagãos?

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LER OS PAGÃOS?

ELEISON COMMENTS CCIII (04 de junho de 2011)

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É possível que, há algum tempo, algumas sobrancelhas Católicas tenham se levantado quando o “Comentários Eleison” (CE 188) recomendou a leitura dos gregos pagãos para compreender a estrutura moral do universo. Por que não ler então autores católicos? Mas as mesmas grandes realidades da vida, o sofrimento e a morte, foram enfrentados tanto pelos trágicos gregos quanto pelos Doutores Católicos: — por que nascemos neste mundo, aparentemente apenas para sofrer e morrer, e pela morte devemos nos separar de tudo o que aprendemos a amar? A questão é básica, e pode ser angustiante.

A resposta católica é clara e completa: um Deus infinitamente bom dá a cada um de nós a vida, o livre-arbítrio e um tempo suficiente, se usamos corretamente o sofrimento perfeitamente dosado pela Sua Providência (Mt. X, 29-31), para escolher se preferimos passar a nossa eternidade com Ele no Céu ao invés de passá-la sem Ele no Inferno. A resposta grega é incompleta, mas não totalmente longe da verdade. Em vez de Deus Pai, eles têm um pai-deus, Zeus, e em vez da Providência têm o Destino (Moira).

Agora, enquanto que para os católicos a Providência é inseparável de Deus, os Gregos separam Zeus de Destino, para que eles às vezes se choquem. Isso porque os gregos têm um conceito demasiado humano de seus deuses. Contudo, eles concebem Zeus como o dirigente mais ou menos benigno do universo e o Destino como imutável, como o é a Providência imersa no verdadeiro Deus (Summa Ia, 23, 8; 116, 3), de modo que eles não estão totalmente errados. Além disso, eles têm mais respeito por seus deuses míticos e pela ordem moral por eles guardada, do que um grande número de escritores modernos que não têm respeito por nenhum deus e que negam qualquer traço de uma ordem moral.

Mas os gregos têm uma vantagem em relação aos escritores católicos. Quando apresentam as grandes verdades, essas são extraídas da vida corriqueira e não apenas – por assim dizer – do Catecismo. O mesmo se aplica a qualquer testemunha não católica sobre as verdades ensinadas pela Igreja. Assim como os hodiernos hebreus talmúdicos, justamente porque rejeitam a Jesus Cristo, se tornam testemunhas especiais dEle, por guardarem zelosamente nas suas sinagogas o texto hebraico daquele Antigo Testamento que fala de Nosso Senhor do começo ao fim, assim também os gregos antigos dão testemunho especial de Deus e de Sua Providência quando, independentemente do Catecismo, demonstram a ordem moral do mundoem ação. Destaforma, provam que tais verdades naturais são acessíveis não apenas aos que crêem, mas pertencem à própria essência da vida como é vivida por todos, se corretamente entendida.

Outra vantagem particular dos antigos clássicos consiste no fato de que, tendo precedido Cristo, não pode haver neles qualquer vestígio daquela apostasia que marca, em maior ou menor grau, até mesmo os piedosos escritores que floresceram na Cristandade após a Idade Média. As verdades naturais são apresentadas pelos antigos com aquela inocência e frescor que não podem mais ser recuperados. As águas estão muito turvas.

Na verdade, foram os mosteiros da Igreja que, nos tempos medievais, garantiram a sobrevivência dos manuscritos dos antigos clássicos. Nos tempos modernos, podem contar com a verdadeira Igreja Católica para salvá-los, mais uma vez, dos novos bárbaros, os liberais! Onde quer que prevaleça a chamada “escola” dos liberais hoje, ela reduz todos os clássicos a pó.

Kyrie eleison.