Comentários Eleson 171 – Caverna interior

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CAVERNA INTERIOR

ELEISON COMMENTS 171 (23 de outubro de 2010)

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A visita a Subiaco me fez lembrar duas linhas de versos latinos que situam em sucessão quatro fundadores de grandes ordens religiosas da Igreja. Além de varrer mais de três quartos da história da Igreja, as linhas também sugerem o porquê de muitas almas católicas de hoje terem a impressão que sua fé está por um fio.

Aqui estão os versos:
          Bernardus valles, Colles amabat Benedictus,
            Oppida Franciscus, Magnas urbes Inácio.

Uma tradução livre poderia ser:
          Bernardo amava os vales, Bento, as colinas,
       Francisco, as vilas, Inácio, as grandes cidades.

Em ordem cronológica (um pouco alterada pelas exigências do hexâmetro latino), São Bento (480-547) buscou a Deus nas montanhas (Subiaco, Monte Cassino); os cistercienses, galvanizados por São Bernardo (1090-1153), desceram aos vales (notavelmente Claraval), São Francisco (1181-1226) vagava entre as pequenas cidades de sua época, enquanto os jesuítas de Santo Inácio (1491-1556) lideraram o moderno apostolado das grandes cidades. Pode-se dizer que a cidade moderna se vingou quando os jesuítas, junto aos dominicanos, lideraram o colapso no Vaticano II (por exemplo, de Lubac e Rahner, SJ, Congar e Schillebeeckx, OP).

Pois sair da montanha em direção à cidade não é sair de onde se está a sós com Deus para ir aonde só há homens? A industrialização e o automóvel tornam possível a cidade moderna e a sua vida mole, mas ao fazer isso, geram um ambiente cotidiano cada vez mais artificial e separado da natureza de Deus. Com o conforto material aumentam as dificuldades espirituais. Na verdade, a vida na cidade grande está se tornando tão desumana que o instinto suicida inerente ao liberalismo pode em breve desencadear a Terceira Guerra Mundial, que vai devastar a vida urbana e suburbana como nós as conhecemos. Então, se, por uma variedade de razões, um católico não pode se refugiar nas montanhas, como ele pode se manter fora dos manicômios?

Uma resposta é lógica. Ele tem que viver com Deus, dentro de si, em uma caverna interior, deixando o mundo em volta enlouquecer sozinho. Ele deve transformar seu próprio coração em um eremitério e, pelo menos sua casa, se possível, deve parecer em uma espécie de santuário, respeitando todas as necessidades naturais da família. Isso não significa viver em um mundo próprio irreal, mas no mundo real de Deus dentre de si, em oposição ao mundo fantástico do Diabo que está fora, e que nos pressiona por todos os lados.

Da mesma forma, a Nova-igreja fechou inúmeros mosteiros e conventos desde o Vaticano II, que abre cada vez menos brechas para uma alma que possa pensar que ouve um chamado interior de Deus. Ele levou-as a um beco sem saída ou as deixou cair? Ou será talvez que Ele as chama a uma vida religiosa interior, transformando seu pequeno apartamento na cidade grande em um eremitério, e seu escritório ateu em um campo de apostolado, por meio da oração, da caridade e do exemplo? Nosso mundo está em grave necessidade das almas católicas que irradiem sua paz e calma interiores com Deus. 

Kyrie eleison.