Comentário Eleison 143 – A popularidade de Van Gogh.


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A POPULARIDADE DE VAN GOGH.


ELEISON COMMENTS CXLIII (10 de abril de 2010)

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Na recente exposição do moderno artista holandês Vincent Van Gogh, que perto está de encerrar-se na Academia Real de Arte em Londres, houve todo o tempo filas de pessoas, que ali ficavam longamente a esperar entrar. Como explicar tamanha popularidade? Certamente Van Gogh é moderno sem o ser em demasia, combinação que hoje atrai numerosas almas ansiosas por ter alguma compreensão do mundo louco que as cerca. Todavia, há nele também combinação ainda mais atrativa – é religioso sem ser religioso – religião para apóstatas!

Ele nasceu na Holanda em 1853, filho mais velho de um pastor Protestante. Por aproximadamente três quartos de sua curta vida, somente pensava em entregar-se ao serviço da religião; sendo que apenas aos 27 anos descobriu o seu extraordinário talento e a sua vocação de artista. Desde então, devotou-se com intensidade religiosa ao domínio do desenho e da pintura, de modo a poder expressar pela arte aquilo que não se via capaz de externar por formas religiosas. Ele dizia “Em toda a Natureza, nas árvores por exemplo, eu vejo expressão e uma alma.”

Ele fez essa alma quase tangível na pintura escolhida pela Academia Real para o folheto da exposição, a “Hospital at St. Remy”. Troncos retorcidos apontam para o alto, em direção à sua escura folhagem, que ultrapassa o prédio amarelo-claro do hospital e se entrelaça com o azul-escuro do céu. As poucas figuras humanas parecem insignificantes em meio à vertiginosa dinâmica da Natureza, e tudo fica o mais dramático pelo jogo de cores brilhantes da imagem – algo típico de Van Gogh. A mesma dinâmica é ainda mais visível no seu famoso quadro “Starry Night” (não incluído na exposição), onde a paisagem, os ciprestes, as montanhas, as estrelas e o céu são todos encadeados em selvagem, rítmica, amarela e violeta dança, parecendo fazer rodopiar todo o cosmo.

Ambos os quadros datam dos intensamente prolíficos cinco últimos anos de Van Gogh, entre sua mudança para Paris, no início de 1886, e sua morte em França, no verão de 1890. Ainda que se não aprecie a arte moderna, e ainda que se não goste de Van Gogh, não há quem possa negar que as suas pinturas deste período representam humana e profundamente individual reação ao que Worsworth chamou “something far more deeply interfused” [N.T.: em tradução livre do verso do poeta romântico: “algo muito mais profundamente difundido”] no mundo da Natureza que nos circunda a nós homens. E nisso tudo, onde está a “arte”? Está apenas em que, ao passo que no início do século XIX aquele “algo difuso” inspirou o poeta inglês a “refletir na tranqüilidade”, pelo contrário, no fim daquele século de apostasia, o artista holandês, que também declaradamente deixara a religião, encontrou beleza mas pouca paz, o que faz-no muito mais simpático à nossa agitada época.

Que desastre! Van Gogh pagou um pesado preço por reconhecer na natureza o primeiro movimento, sem identificar o Primeiro Motor. O movimento sem o Motor imóvel, o dinamismo feroz sem o Rei da Paz, terminou por esmagá-lo, e ele morreu suicidando-se com um tiro. Senhor Deus, tende misericórdia, tende misericórdia para com as milhões e milhões de almas que Vos sentem e que de Vós precisam, mas não podem – ou não vão – encontrar-Vos. O Senhor só sabeis quão perigosas são as suas vazias religiões!

Kyrie eleison.

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