A maravilhosa legenda do Convento da Penha, no Espírito Santo


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A MARAVILHOSA LEGENDA DO CONVENTO DA PENHA, NO ESPÍRITO SANTO

Nascido de um prodígio e baluarte na luta contra as invasões holandesas, o convento abriga uma imagem milagrosa de Nossa Senhora da Penha.

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Célebre é o Santuário de Nossa Senhora da Penha, no Estado do Espírito Santo, situado soberbamente no alto de uma montanha de 154 metros de altura, como um farol que ilumina com as luzes do cristianismo a entrada da magnífica enseada da capital, Vitória.

Contíguo ao Santuário ergue-se o convento, desde 1650, arrojadamente construído nas escarpas da rocha, dando de longe a impressão de inexpugnável fortaleza.

Desde o século XVI, vários cronistas têm escrito sobre esse monumento, contando sua história de milagres e de defesa contra os inimigos de nossa pátria, com episódios desconhecidos da imensa maioria do público.

Pré-história do Santuário da Penha

No ano de 1558 chegou à então Capitania do Espírito Santo, pelo Porto de Vila Velha, o Irmão franciscano Frei Pedro Palácios, futuro fundador do Santuário da Penha. Nascido na Espanha, desejava ajudar os jesuítas –– instalados em Vitória desde 1551 –– na catequese dos índios.

Frei Palácios era devoto da Virgem Santíssima, sob a invocação de Nossa Senhora dos Prazeres. Trouxera de Portugal um quadro pintado a óleo, que a representava, colocando-o numa capelinha no alto da montanha. Daí se originou a denominação de Penha (penhasco).

Ao encontrar duas palmeiras no cume do rochedo, Frei Pedro disse aos que o conheciam, com muita alegria, que já achara o que procurava. Segundo as crônicas da época sobre Frei Palácios, “é de tradição que lhe servia de carta de marear uma imagem de Nossa Senhora, que trazia em um painel, a qual destinava para teatro de suas virtudes um monte, o qual conheceria pelo sinal de duas palmeiras que veria no cume de tal monte”.

Não se sabe exatamente quando Frei Palácios deu início à construção da ermida no alto da montanha. A legenda atribui a resolução de edificá-la ao fato seguinte: “Certo dia desapareceu o painel da Virgem na capela usada pelo frei, na base do morro. Após longa procura encontrou-o no alto da penha, entre as duas palmeiras. Satisfeito, recolocou-o na capela embaixo do monte. O desaparecimento no entanto ocorreu mais duas vezes, sendo o painel encontrado no mesmo lugar. Ao mesmo tempo, uma fonte com água copiosa nascia no vértice da rocha. Frei Palácios reconheceu nestes sinais a vontade expressa de Nossa Senhora em querer que se lhe construísse uma capela no lugar indicado e não demorou com a execução”.

Esse quadro trazido por Frei Palácios é de grande beleza, executado com perfeição. Não se sabe onde o teria adquirido, nem sua autoria, havendo hipóteses de que seja obra de discípulos de algum célebre pintor do Renascimento. Em 1570, cedeu ele lugar à imagem de Nossa Senhora da Penha que até hoje se venera no local. Atualmente, o quadro de Nossa Senhora dos Prazeres conserva-se na parede do Santuário, à direita do púlpito.

A imagem de Nossa Senhora da Penha

Após dez anos de trabalhos árduos e incessantes, além de constantes penitências, pouco antes de sua morte, Frei Palácios prontificou-se em obter para a ermida de Nossa Senhora da Penha uma nova imagem, encomendando-a em Portugal.

Diz a tradição que a pessoa designada para mandar fazê-Ia em Portugal esqueceu-se da encomenda durante a viagem, não tomando nenhuma providência para isso. No entanto, às vésperas de voltar ao Brasil, um desconhecido lhe entregou um caixote, e ao abri-lo, encontrou a imagem exatamente com as indicações pedidas por Frei Palácios! Ela tem 76 centímetros de altura, nobreza, graça e naturalidade inimitáveis, e uma expressão de doce melancolia.

Assim, ficou aquela região, durante décadas, sob a maternal proteção de Nossa Senhora da Penha.

Ataque frustrado dos holandeses

Em 1630, os protestantes holandeses chegaram a nossa pátria, invadindo vasta região do Nordeste e aí permanecendo durante 24 anos. Trazendo na alma ódio ao catolicismo e desenfreada cobiça, como bárbaros irracionais, semeavam, por todas as partes, a morte, fazendo vítimas inocentes, violando lares, profanando templos, enfim, praticando os crimes mais hediondos.

Deus, entretanto, que protegia a terra de Santa Cruz, suscitou para a sua defesa bravos heróis, fazendo inúmeros milagres e prodígios.

Nessa época, a capitania do Espírito Santo sofreu diversos assaltos dos hereges, seguidores de Calvino e Lutero, um dos quais contra o Santuário da Penha, milagrosamente frustrado. A construção desse templo, iniciada em 1639, já estava quase concluída quando os holandeses tentaram tomá-lo de assalto em 1643. No ano seguinte, terminou-se a sua edificação.

No dia 22 de setembro de 1643 haviam os holandeses se assenhoreado do porto de Vila Velha e já começavam a fortificar-se quando, diante de seus olhos, o Santuário ia se transformando em castelo, cercado de fortes muralhas e defendido por um esquadrão de soldados. Do monte descia muita gente, a pé e a cavalo, todos com armas luzentes e bem preparadas (no morro, entretanto, não havia ficado pessoa alguma; e a própria imagem da Penha havia sido removida para o convento de São Francisco, embaixo, na vila).

A vista desse espetáculo aterrador, fugiram os holandeses desordenadamente, recolhendo-se à suas naus, tendo sido massacrados ainda quarenta deles por habitantes da vila.

Tal fato ocorreu no dia da festa dos santos soldados mártires da Legião Tebana*, com seu capitão São Mauricio.

Daí interpretarem os moradores que o esquadrão ao pé do castelo era constituído pelo santo e seus companheiros, os quais, no dia de seu martírio, vieram prestar socorro aos católicos. Uma ação, portanto, da Legião Tebana, sob inspiração de Nossa Senhora da Penha. Os habitantes erigiram mais tarde no Santuário um altar em louvor de São Maurício, e em honra dele fundaram uma confraria.

Expulsão definitiva do herege invasor

Uma segunda tentativa de saquear o convento foi feita pelos holandeses no final de 1653, pouco antes de serem expulsos definitivamente do Brasil.

O superior do Santuário da Penha era então Frei Francisco da Madre de Deus, que trabalhava ativamente para levar adiante sua construção.

Os holandeses chegaram de repente e em plena madrugada, tomando de assalto toda a montanha e arredores, pegando de surpresa religiosos e empregados.

Contra a força das armas não podia haver resistência, mas Frei Francisco permaneceu imóvel em oração diante da imagem de Nossa Senhora da Penha. Os holandeses roubaram todas as preciosidades da sacristia e do altar, sem molestar o religioso.

Quando procuraram pegar a coroa e o manto da Virgem, Frei Francisco levantou-se, exigindo que não a tocassem, que ele mesmo os tiraria. E assim o fez, obrigado pelas armas.

Um dos holandeses tentou então apossar-se de um precioso anel do dedo da imagem, mas não o conseguiu, nem tampouco cortar seu dedo ou sua mão, tendo que desistir. Mas levaram a coroa, o manto e os brincos da efígie sagrada.

Após a fracassada tentativa, o frade passou a increpar o holandês com enérgicas palavras: “Vai-te embora e lá verás os brincos que te hão de custar caro; e este será o último atrevimento dos teus companheiros no Brasil, porque só isto faltava por teus pecados para castigo teu e dos demais”.

Os holandeses partiram, levando muitos valores e alguns empregados como escravos, mas com os religiosos nada fizeram.

A previsão de Frei Francisco se cumpriu do modo mais completo. Não muitos dias depois, no memorável 27 de janeiro de 1654, João Fernandes Vieira –– que comandava a vanguarda do exército luso-brasileiro –– entrava triunfalmente na cidade de Recife, e a libertava do jugo holandês, colocando ponto final à invasão batava no Brasil.

Venceu os hereges o mesmo Fernandes Vieira contra quem, pouco antes, os holandeses haviam espalhado a notícia de que havia sido morto. Ao que o bravo comandante mandou responder: “Graças, quem disse isso aos flamengos falou verdade que era morto, e fui, mas chegando ao céu me perguntou Deus se ficaram mais flamengos no Recife e eu lhe respondi que sim, e ele me tornou a mandar para que os viesse a acabar de matar”.

Na rendição final dos hereges invasores, em Recife, esteve presente Frei Daniel, do Santuário da Penha, a quem foram restituídos os empregados levados como escravos, juntamente com as alfaias, ornamentos e outras peças roubadas pouco antes, durante o saque do Santuário.

Na história de Nossa Senhora da Penha, no Espírito Santo, são abundantes os milagres e prodígios que Ela sempre operou e que continuam até nossos dias. Escolhemos apenas os que poderiam caber nos limites de um simples artigo, suficientes para levar os leitores à veneração de uma das padroeiras mais cultuadas do Brasil.


(Extraído da Revista Catolicismo, abril-1993)

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*Legião tebana:
Segundo o Martirológio Romano, durante a guerra movida pelo Imperador Maximiano contra os bagaudios –– camponeses da Gália que se rebelaram contra a dominação romana em 286 ––, a legião denominada tebana, aquartelada em Agauno, naquela província do Império, foi convocada à cidade de Octodurum, a fim de sacrificar aos deuses e prestar um juramento especial. Recusando-se a fazê-Io, pelo fato de serem cristãos, Maurício, Esupério, Cândido, Víctor, Inocêncio e Vital e seus 666 companheiros de Legião foram massacrados.
A Santa Igreja os canonizou como mártires.

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BIBLIOGRAFIA:

1. P. Dr. H.C. Frei Basílio Rower O.F.M e Frei Alfredo W. Setaro O.F.M., O convento de Nossa Senhora da Penha do Espírito Santo, Vozes, Petrópolis, 1965.

2. Manoel E. Altenfelder Silva, Brasileiros Heróis da Fé, Livraria Salesiana Editora, São Paulo. 1928.

3. Major Antônio de S. Júnior, Do Recôncavo aos Guararapes, Biblioteca Militar. 1949.

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