A Missa Tradicional

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A MISSA TRADICIONAL

Artigo de Michel Boniface, Pbro.

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O culto devido a Deus

O primeiro dever do homem é adorar a Deus, prestar-lhe o culto de adoração, de louvor, de ação de graças que Lhe é devido. Dar culto de adoração a Deus significa reconhecer a Deus como nosso Criador e Senhor. Ele nos criou, d´Ele dependemos. Damos-Lhe também graças por todos os benefícios que recebemos d´Ele. Pedimos-Lhe perdão por nossas faltas e pecados e, finalmente, pedimos-Lhe também o que necessitamos para a nossa vida e salvação eterna. Em concreto, estes são os quatro fins da Santa Missa.

Este culto não é somente pessoal, individual, mas é sobretudo um culto público, ordenado e prescrito pela Igreja, sob a moção do Espírito Santo.

Deste culto oficial se ocupa a Liturgia. A palavra Liturgia vem do grego leiton ergon que significa obra ou ministério público. “A Liturgia é, portanto, o culto público e oficial que a Igreja presta a Deus e ao mesmo tempo santifica os fiéis”[1].

O padre Gregório Martínez de Antoñana escreve: “A Liturgia, em sentido geral e objetivo, é o mesmo que o culto público da Igreja, e pode definir-se: o conjunto de ações, de fórmulas e de coisas com que, segundo as disposições da Igreja Católica, se dá culto público a Deus”[2].

Como a Igreja é o Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo, que por meio dela continua a sua função sacerdotal através dos séculos, num sentido mais teológico e completo pode definir-se a Liturgia com o Papa Pio XII: “é todo o culto público do Corpo Místico de Jesus Cristo, ou seja, da Cabeça e dos seus membros”.

E mais brevemente: “A Liturgia é o exercício do sacerdócio de Jesus Cristo pela Igreja”[3]. A Liturgia é a teologia feita oração.

Pertencem a Liturgia: o Santo Sacrifício da Missa, que é a sua alma e o seu centro; o ofício divino, que gira e se desenrola em torno da Missa. O ofício divino chama-se também Breviário, livro que contém as orações oficiais da Igreja que cada sub-diácono, diácono, sacerdote, bispo e Papa fazem oito vezes por dia para a Igreja e todos os seus Filhos.

Pertencem também à Liturgia os Sacramentos, Sacramentais (bênçãos); e todos os ritos e cerimônias, símbolos e vestidura, vasos e lugares sagrados bem como os cantos e melodias que a Igreja usa para concretizar este culto público e solene.

A Liturgia constitui a vida mesma da Igreja, do Corpo Místico de Cristo. Por isso, tem um poder para a santificação das almas verdadeiramente admirável. Por meio da Liturgia católica, ascendem ao céu a adoração, a ação de graças, os pedidos de perdão e de ajuda dos fiéis e, por meio desta mesma Liturgia, descem sobre os homens a misericórdia, ajuda, proteção de Deus sobre os fiéis católicos e sua Santa Madre, a Igreja.

A liturgia constitui o meio mais poderoso que tem a Igreja para converter as almas, santificá-las e protegê-las. A Liturgia é o meio mais poderoso para comunicar a fé católica no Sacrifício de Cristo renovado sobre o altar com a mesma eficácia. Por esta razão, desde os primeiros séculos se diz: Lex orandi, Lex credendi. A lei da oração, a maneira de rezar, nos diz a lei da crença, quer dizer, a maneira de rezar, de prestar culto a Deus, demonstra o que cremos.

Durante séculos, a fé católica foi comunicada por meio da Liturgia, na qual estão concentradas todas as verdades do Credo católico. Na história da Igreja existem os construtores e os destruidores da Liturgia. Alterar, modificar a Liturgia da Missa, por exemplo, pode ter conseqüências incalculáveis sobre a fé do povo e dos sacerdotes: essa alteração pode destruir sua fé, corromper sua moral e precipitá-los na decadência e apostasia. Os povos protestantes nos dão o exemplo. Tendo mudado a sua Liturgia, mudaram a sua fé e fizeram-se hereges e atualmente ateus em muitos lugares. No século XVI, na Inglaterra, o sacerdote herege Thomas Cranmer mudou a Liturgia da Missa do latim para o inglês; uns anos depois, a Inglaterra perdeu a fé católica e impediu a cristianização do mundo opondo-se às nações católicas missionárias como Espanha e Portugal.

Origem, desenvolvimento e definição da Missa Católica Tradicional

A Missa Católica chamada Missa Tradicional, Missa Tridentina ou Missa de São Pio V está composta por duas partes, a saber, a parte essencial, que são os elementos instituídos por Nosso Senhor Jesus Cristo e as palavras e cerimônias que estão à sua volta.

Os elementos essenciais da Santa Missa, que foram instituídos por Cristo mesmo na Última Ceia, são:

1) A matéria: pão e vinho;

2) A forma, ou seja, as palavras: “Este é o Meu Corpo” e “Este é o Cálice do Meu Sangue…”;

3) Um sacerdote validamente ordenado que,

4) tenha a intenção de fazer o que a Igreja faz na confecção deste Sacramento.

As palavras e cerimônias que envolvem estes elementos essenciais foram-se desenvolvendo e adquirindo forma através dos anos até alcançar a forma que chegou aos nossos dias. A seguir, faremos uma muito breve resenha do desenrolar destas palavras e cerimônias.

Durante os séculos I e II, essas palavras de Cristo estiveram rodeadas por uma liturgia inicial que, pouco a pouco, foi desenrolando-se e germinando no Oriente e Ocidente do império romano. Todas as partes da Missa apareceram já no século III e foi no século IV que o rito romano ficou plenamente conformado e, mais concretamente, durante o pontificado do Papa São Dâmaso (366-384).

Diremos que até São Gregório Magno (590-604) não existia um Missal Oficial com o Próprio das missas do ano. O líber Sacramentorum foi redigido, por encargo de São Gregório no princípio de seu pontificado, para serviço e uso das Stationes que tinham lugar em Roma, quer dizer, para a liturgia pontifical. Pode-se dizer que este Missal contém agora quase a mesma Missa Tradicional tal como chegou a nossos dias, posto que as modificações ou adições que São Pio V (1566-1572) efetuou ao codificar o seu Missal Romano foram muito pequenas.

Portanto, podemos assegurar que a Missa que atualmente se diz de São Pio V, ou Missa Tradicional, não é outra senão o rito romano tal qual o encontramos, em suas partes mais importantes, no século IV, tendo sido posteriormente imprimido, pela primeira vez, num Missal por São Gregório Magno.

O Cânon da Missa, aparte alguns retoques efetuados por São Gregório Magno, alcança com São Gelásio I (492-496), a forma que tem conservado até hoje. Os Romanos Pontífices não deixaram de insistir desde o século V sobre a importância de adotar o Cânon Missae Romanae, dado que este remonta a nada menos do que ao mesmo Apóstolo Pedro.

Mas no que respeita às outras partes do Ordo, como pelo Próprio das missas, respeitaram o uso das igrejas locais. Assim, São Pio V codifica a Missa Romana na sua forma mais pura segundo a indicação do Concílio de Trento (1545-1563).

“O sacrifício cumpra-se segundo o mesmo rito para todos e por todos, de forma que a Igreja de Deus não tenha mais do que uma mesma língua… que os missais sejam restaurados segundo o uso e costumes antigos da Missa Romana”. O Missal assim restaurado foi promulgado no dia 19 de Julho de 1570 pela Bula Quo Primum Tempore, dando a conhecer duma forma particularmente solene. A bula precisa duma forma muito clara que não se trata de um novo rito, mas de um missal revisto e corrigido”.

No Catecismo Maior de São Pio X, encontramos a seguinte definição do que é a Santa Missa: “A Santa Missa é o Sacrifício do Corpo e Sangue de Jesus Cristo, que se oferece sobre os nossos altares sob as espécies do pão e do vinho em memória do sacrifício da Cruz” (no. 655), “é substancialmente o mesmo que o da Cruz…” (no. 656), “na Cruz, Jesus Cristo se ofereceu derramando o seu sangue e merecendo por nós, enquanto que nos nossos altares Ele mesmo se sacrifica sem derramar sangue e nos aplica os frutos da sua paixão e morte (no. 657).

O Concílio de Trento declara que a Missa é um Sacrifício verdadeiramente oferecido pelo sacerdote oficiante, pela virtude do seu sacerdócio, in persona Christi, quer dizer, no lugar de Cristo, que é simultaneamente o Sacerdote e a Vítima, sendo a Missa o mesmo Sacrifício da Cruz.

Na Cruz, o Sacerdote que oferece o Sacrifício é Nosso Senhor Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote; a Vítima oferecida é também Nosso Senhor e o Padre Eterno é a quem este Sacrifício é oferecido. No santo Sacrifício da Missa, o sacerdote que oferece o Sacrifício é Nosso Senhor mesmo, agora que o celebrante atua in persona Christi. A Vítima do Sacrifício é Nosso Senhor Jesus Cristo, real e substancialmente presenteem Seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade, sob as aparências do pão e do vinho. E, finalmente, O que recebe o Sacrifício é Deus Pai.

Desta maneira, vemos que os elementos essenciais do sacrifício (Sacerdote, Vítima e Recipiente), são exatamente os mesmos na Cruz e na Missa.

A Missa, de fato, é o mesmo Sacrifício da Cruz, com a diferença de que não é cruento. Tal sacrifício tem quatro finalidades: 1) Sacrifício de adoração; 2) Sacrifício eucarístico (quer dizer, de ação de graças); 3) Sacrifício propiciatório (para dar-Lhe alguma satisfação por nossos pecados e oferecer-Lhe sufrágios para as almas do purgatório); 4) Sacrifício de petição destinado a apresentar uma súplica.

Concluímos que ao assistir à Santa Missa Tradicional com as disposições necessárias, nos fazemos participantes dos méritos que Nosso Senhor obteve para nós no Santo Sacrifício da Cruz.


[1] J. G. Treviño, Lecciones practicadas de Liturgia, México D.F. sin fecha, pág. 5.

[2] Gregorio Martínez de Antoñana, Manual de Sagrada Liturgia, Madrid, ed Coculsa, 1957 pág. 1 no 1.

[3] Papa Pío XII, Encíclica Mediator Dei.